O Culto do Amador de Andrew Keen
Andrew Keen é um empresário e escritor britânico-americano . Ele é particularmente conhecido por sua opinião de que a atual cultura da Internet e a tendência da Web 2.0 podem estar rebaixando a cultura. Keen está especialmente preocupado com a maneira como a atual cultura da Internet mina a autoridade de especialistas instruídos e o trabalho de profissionais.Ele é autor de quatro livros:
O Culto do amador, Vertigem Digital , The Internet Is Not the Answer , e seu
último livro How To Fix The Future, publicado em fevereiro de 2018.
Na cultura de autotransmissão de hoje, onde o amadorismo é celebrado e qualquer um com uma opinião, ainda que mal informada, pode publicar no blog, postar um vídeo no YouTube ou alterar uma entrada na Wikipédia, a distinção entre especialista treinado e amador desinformado torna-se perigosa indistinguíveis. Quando blogueiros e videomakers anônimos, sem restrições por padrões profissionais ou filtros editoriais, podem alterar o debate público e manipular a opinião pública, a verdade se torna uma mercadoria a ser comprada, vendida, embalada e reinventada.
Introdução
[...]se fornecermos a um número infnito de macacos um número infnito de máquinas de escrever, em algum lugar alguns macacos acabarão criando uma obra-prima — uma peça de Shakespeare, um diálogo de Platão ou um tratado econômico de Adam Smith.
A tecnologia de hoje vincula todos aqueles macacos a todas aquelas máquinas de escrever. Com a diferença de que em nosso mundo Web 2.0 não são mais máquinas de escrever, e sim computadores pessoais conectados em rede, e os macacos não são exatamente macacos, mas usuários da Internet. E em vez de criarem obras-primas, esses milhões e milhões de macacos exuberantes – muitos sem mais talento nas artes criativas que nossos primos primatas – estão criando uma interminável foresta de mediocridade. Pois os macacos amadores de hoje podem usar computadores conectados em rede para publicar qualquer coisa, de comentários políticos mal informados a vídeos caseiros de mau gosto, passando por música embaraçosamente mal-acabada e poemas, críticas, ensaios e romances ilegíveis.
No cerne desse experimento de autopublicação por uma infnidade de macacos está o diário na Internet, o onipresente blog. Blogar tornou-se uma mania tal que um novo blog é criado a cada segundo de cada minuto de cada hora de cada dia. Estamos blogando com um despudor simiesco sobre nossas vidas privadas, nossas vidas sexuais, nossas vidas oníricas, nossa falta de vida, nossas segundas vidas. Neste momento, há 53 milhões de blogs na Internet. O número dobra a cada seis meses. Enquanto você leu este parágrafo, dez novos blogs foram criados
Mas o experimento dos macacos infnitos na Internet não se limita à palavra escrita. A máquina de escrever do século XIX de T.H. Huxley evoluiu, para transformar-se não só no computador, mas também na flmadora, convertendo a Internet numa vasta biblioteca de vídeos gerados pelos usuários. O YouTube, por exemplo, é um portal para vídeos amadores que, enquanto escrevo, é o site que cresce mais rapidamente no mundo, atraindo 65 mil novos vídeos a cada dia e gabando-se de que 60 mi de vídeos são vistos diariamente; isso corresponde a mais de 25 mi de vídeos por ano e cerca de 25 bi de hits. Em 2006, essa súbita sensação foi comprada pelo Google por mais de US$ 1,5 bi.
Capítulo 1 - A Grande Sedução
A Internet estava de volta! E, ao contrário do que acontecera na corrida do ouro dos anos 1990, desta vez nossa exuberância não era irracional. Essa nova e reluzente versão da Internet, que Tim O’Reilly chamou Web 2.0, mudaria realmente tudo. Agora que a maioria dos americanos tinha acesso à banda larga, o sonho de uma sociedade inteiramente conectada, e sempre conectada, seria fnalmente realizado. Uma palavra estava em todos os lábios no FOO Camp: “democratização”.
Eu nunca me dera conta de que a democracia tinha tantas possibilidades, tanto potencial revolucionário. Mídia, informação, conhecimento, conteúdo, público, autor — tudo iria ser democratizado pela Web 2.0. A Internet ia democratizar a grande mídia, as grandes empresas, o grande governo. Iria até democratizar os grandes especialistas, transformando-os no que um amigo de O’Reilly chamou, num tom contido e reverente, de “nobres amadores”
A nova Internet tinha a ver com música feita pelo próprio usuário, não com Bob Dylan ou os Concertos de Brandenburgo. Público e autor haviam se tornado uma coisa só, e estávamos transformando cultura em cacofonia.
Nós éramos a nova mídia. O evento era uma versão beta da revolução da Web 2.0, em que a Wikipédia se misturava com MySpace e com YouTube. Todos estavam transmitindo a si mesmos simultaneamente, mas ninguém estava ouvindo. A partir dessa anarquia, fcou claro, de repente, que o que estava governando os macacos infnitos que agora introduziam informação na Internet era a lei do darwinismo digital, ou seja, a sobrevivência dos mais ruidosos e mais dogmáticos. Sob essas regras, a única maneira de prevalecer intelectualmente é mediante infnita protelação
Porque a democratização, apesar de sua elevada idealização, está solapando a verdade, azedando o discurso cívico e depreciando a expertise, a experiência e o talento. Como afrmei antes, está ameaçando o próprio futuro de nossas instituições culturais.
Eu chamo isso a grande sedução. A revolução da Web 2.0 disseminou a promessa de levar mais verdade a mais pessoas — mais profundidade de informação, perspectiva global, opinião imparcial fornecida por observadores desapaixonados. Porém, tudo isso é uma cortina de fumaça. O que a revolução da Web 2.0 está realmente proporcionando são observações superfciais do mundo, em vez de uma análise profunda, uma opinião estridente, ou um julgamento ponderado. O negócio 4/9 da informação está sendo transformado pela Internet no puro barulho de 100 mi de blogueiros, todos falando ao mesmo tempo sobre si mesmos.
O Custo da Democratização
O desfoque da fronteira entre o público e o autor, fato e fcção, invenção e realidade obscurece mais ainda a objetividade. O culto ao amador tornou cada vez mais difícil determinar a diferença entre o leitor e o escritor, o artista e o porta-voz, arte e propaganda, amadores e especialistas. O resultado? A queda da qualidade e da confabilidade das informações que recebemos, o que desvirtua, ou até corrompe descaradamente nossa conversa cívica nacional.
Na Web, onde todos têm voz igual, as palavras do sábio valem mais do que os murmúrios de um tolo. Sim, todos temos opiniões mas, poucos de nós tem uma formação especial, conhecimento ou experiência prática para gerar algum tipo de perspectiva real. Thomas Friedman, colunista do NYT, e Robert Fisk, correspondente no Oriente Médio do jornal Independent, por exemplo, não surgiram de um blog obscuro – eles adquiriram conhecimento profundo sobre a região passando anos lá. Isso envolveu investimentos consideráveis de tempo e recursos, pelos quais os próprios jornalistas e os jornais em que trabalham merecem ser remunerados.
O talento, como sempre, é um recurso limitado, a agulha no palheiro digital de hoje. Não se encontra o indivíduo talentoso, treinado, naufragado de pijama atrás de um computador, produzindo postagens estúpidas em blogs ou resenhas anônimas de flmes. Cultivar talento exige trabalho, capital, competência, investimento. Requer a infraestrutura complexa da mídia tradicional – olheiros, agentes, editores, publicitários, técnicos, marqueteiros. O talento é construído pelos intermediários. Se se os “desintermedia”, acaba-se também com o desenvolvimento do talento.
Num desenho de 1993 da The New Yorker, dois cães estão sentados ao lado de um computador. Um deles está com a pata no teclado, o outro o está olhando interrogativamente. “Na Internet”, o cão com o teclado tranquiliza seu amigo canino, “ninguém sabe que você é um cachorro”. Isso é mais verdadeiro do que nunca. Na era da autopublicação, ninguém sabe se você é um cão, um macaco ou o coelhinho da Páscoa. Todo mundo está tão ocupado se autodifundindo (egocasting) para dar ouvido ao outro, por demais imerso na luta darwiniana pela compartilhamento da mente.
Mas não podemos culpar outras espécies por este triste estado. Nós seres humanos monopolizamos o centro das atenções nesta nova fase da mídia democratizada. Somos ao mesmo tempo os escritores amadores, os produtores amadores, os técnicos amadores e, sim, os espectadores amadores.
A hora do amador chegou, e o público já está dirigindo o show.Para saber mais sobre o autor, confira a entrevista que Andrew Keen concedeu a Eduardo Socha, para a Revista Cult:

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